sábado, 11 de setembro de 2010

Ouça no volume máximo #3

                Saudações galera, chegamos a mais uma seção “Ouça no volume máximo”, e hoje esmiuçaremos um álbum da Legião Urbana que trás o registro de canções jamais lançadas em discos, porém conhecidas do público através das apresentações ao vivo. Contudo reitero aqui que faço somente um breve resumo através de informações coletadas em livros, revistas e internet (sempre citando os créditos ao final do texto).

Que país é este
Período de gravação: outubro a dezembro de 1987
Data de lançamento: dezembro 1987
Produzido por: Mayrton Bahia

                O terceiro disco da Legião Urbana trazia, já no título, a marca do Aborto Elétrico. Chamava-se “Que país é este 1978/1987” (detalhe: a Legião sequer existia em 78). Há no álbum um texto não assinado de Renato Russo explicando porque a canção homônima (apesar do enorme sucesso nas apresentações ao vivo) jamais havia sido gravada antes: “porque sempre havia a esperança de que algo iria realmente mudar no país, tornando-se a música então totalmente obsoleta...”. Lamentavelmente ela continua atual até hoje.

Legião Urbana - Que país é este

                O álbum era uma espécie de antologia, que reunia sobras do “Dois” e o material produzido por Renato na época do Aborto Elétrico e do Trovador Solitário. Alguns críticos consideram-no como um disco revoltado e pesado, porém fez um grande sucesso por ser bastante crítico e inovador.
                Em setembro de 1987, a banda chegou a suspender as gravações do seu terceiro disco. Dado cismou de seguir pela diplomacia, Marcelo pensou em pegar onda na Austrália e Renato sentia-se desconfortável no papel de novo porta voz da juventude, pois tinha perfeita consciência da responsabilidade social de um artista. Não se sentia à vontade, por exemplo, pra tratar de um tema como identidade sexual, dada a enorme parcela de crianças entre seus fãs. “Sou um jovem de vinte e poucos anos, não sei nada da vida... e as pessoas bebem minhas palavras como água”.
                Porém no mês seguinte a Legião já estava de volta ao estúdio. A gravadora (EMI) pressionava a galinha dos ovos de ouro a lançar mais um disco antes do Natal. Idéia que agradou a banda, pois seria um presente aos fãs.
                Durante a turnê de divulgação do disco, o que havia sido planejado pra ser ‘um mega show’ tornou-se um pesadelo, e por pouco quase converte-se em tragédia. Na apresentação em Brasília no estádio Mané Garrincha, um maluco agarrou-se ao pescoço de Renato enquanto a banda era atingida por bombinhas. O grupo ainda tentou continuar tocando, mas já era praticamente impossível e o show terminou em um grande tumulto!
                As reações foram estremadas de todos os lados. O governo José Aparecido acusava a banda de ser a responsável pelos 385 atendimentos no serviço médico, as 60 pessoas detidas pela PM e os 64 ônibus depredados. E os jornais locais renegaram o grupo.
                Depois do show, Renato agitadíssimo num quarto de hotel, bradava enquanto dava tapas na parede: “aconteceram coisas terríveis aqui em Brasília, muita gente morreu na construção da cidade. Mas para ocultar os cadáveres, os candangos que morriam eram misturados com concreto. Deve haver candango morto aqui”.
                A Legião Urbana jamais voltou a tocar em Brasília, e a partir de então as apresentações ao vivo passaram a ser cuidadosamente planejadas.
                Apesar da confusão em Brasília, o show do sábado seguinte, no Mineirinho, em Belo Horizonte, foi tranqüilo. Não chegou a ser atrapalhado nem pela acústica do ginásio e muito menos pelos pastores evangélicos que panfletaram contra a realização do espetáculo.

                Assista abaixo ao clip oficial da canção “Que país é este”:


 Curiosidades:
♫O nome previsto para o álbum era ‘Mais do mesmo’, que mais tarde acabou sendo o nome da coletânea póstuma (autorizada a contragosto por Dado e Marcelo) lançada pela EMI em 1998, com a condição de permanecer somente um ano no catálogo, no entanto como o disco começou a ser pirateado loucamente, voltou às lojas em 2000;

♫’Faroeste Caboclo’, uma das composições do período do Trovador Solitário, tornou-se um fenômeno de execução nas rádios, apesar de seus quase 10 minutos de duração sem refrões (é o repente mais conhecido do Brasil). Detalhe: algumas rádios editavam os trechos que levaram a Censura Federal a proibir a radiodifusão desta canção;

♫’Conexão Amazônica’, (repertório do Aborto Elétrico e que também chegou a ser censurada), embora não estivesse entre as melhores letras de Renato, continha um dos seus versos mais memoráveis: “Mas alimento pra cabeça nunca vai matar a fome de ninguém”. Uma crítica a conversas intelectualizadas e à MPB, que se perdera do público pelo recurso persistente de metáforas (imposto pela censura do regime militar);

♫’Angra dos Reis’ era uma das canções "inéditas" do disco (lançado no 2º semestre de 1987). Naquele momento, não fazia muito tempo que havia ocorrido o acidente nuclear de Chernobyl (1986). Com esse incidente, as usinas nucleares deixaram de ser vistas como fonte alternativa de energia e passaram a ser tomadas como perigosas, devido ao risco de explosão. No Brasil, foi trazida de volta à tona a discussão sobre a necessidade de Angra I e II como fonte de energia.

♫Durante vinte dias, Renato Russo foi insistentemente convidado para realizar uma palestra em São Paulo, só confirmando sua presença dois dias antes do evento. Para seu espanto, tratava-se na realidade, de uma apresentação ao vivo. Esta exibição tornou-se mais um dos momentos históricos na carreira de Renato. Nada foi ensaiado e talvez duas palavras definam bem esta situação: intimidade e improviso. Desta apresentação somente ‘Summertime’ foi lançada oficialmente (em 2010 no CD Duetos), porém alguns poucos fãs possuem na íntegra o registro deste show acústico, que mostra Renato interpretando canções absolutamente inéditas, raras e fantásticas! Além de ‘Yesterday’, ‘Summertime’ há uma versão ao vivo de ‘Boomerang Blues’.

♫Nas apresentações ao vivo, Renato fazia inserções no meio das canções de trechos de músicas de Elvis Presley, The Beatles, Roling Stones, Jimi Hendrix entre outros, todavia o que fazia o maior sucesso eram os seus comentários políticos, no sentido amplo, protestando contra matanças rituais de homossexuais (“todo mundo tem direito de amar quem quiser, e ninguém deve ‘regular’ a forma de amar de outras pessoas”),ou clamando por eleições diretas (“Exija eleição! É só votando que a gente pode mudar alguma coisa”);

♫Ainda nos shows, Renato conduzia a platéia para onde queria. As pessoas cantavam “é Legião, é Legião, olé, olé, olê...” como se estivessem no maior estádio do mundo, torcendo por seu time do coração. Era religioso o fervor com que o público acompanhava os sucessos da banda. Nesse clima, a despedida do cantor era mais que coerente: “que Deus abençoes vocês. Obrigado, boa noite”.

Crédito dos textos:
http://www.legiaonaveia.com.br de Michel Zylberberg;
http://www.geocities.com/legiaolegiao de Fernando Ribeiro Ramos;
http://www.osoprododragao.com
Livro ‘Renato Russo’ de Arthur Dapieve da série Perfis do Rio;
Revista Bizz
trecho do texto de Douglas Silva Domingues.

Dado Villa-Lobos (guitarras, violão, percussão e vocal), Renato Russo (vocal, teclados e violão), Renato Rocha (contrabaixo elétrico e vocal), Marcelo Bonfá (bateria, percussão e teclados).

1-Que país é este
2-Conexão amazônica
3-Tédio (com um T bem grande pra você)
4-Depois do começo
5-Química
6-Eu sei
7-Faroeste Caboclo
8-Angra dos Reis
9-Mais do mesmo

2 comentários, é um milagre!

Vânia disse...

Adorei o blog pois tem tudo de Legião Urbana muito bom.

Elaine Sakura disse...

Acabei de descobrir sem querer esse blog, e estou muito feliz, pq "Ouça no Volume Máximo" é o máximo!!! Amei as ilustrações, e o texto, e tudo! Parabéns e muito sucesso!!!!!!

Related Posts with Thumbnails